Comprar a Primeira Casa em 2026: Quanto Precisa Realmente Ter Poupado

"Quanto preciso ter no banco para comprar a minha primeira casa?" É a pergunta que mais ouço, e a resposta sincera é: depende, mas talvez menos do que pensa. Com a isenção de IMT para jovens até aos 35 anos e a garantia pública do Estado, comprar a primeira casa em 2026 ficou substancialmente mais acessível para quem tem o perfil certo. Neste guia, mostro-lhe os números reais — entrada, impostos, escritura e custos escondidos — com exemplos concretos para a Costa de Prata e Linha de Sintra.

6/1/20266 min ler

Planeamento financeiro para comprar primeira casa em Portugal — orçamento e poupanças
Planeamento financeiro para comprar primeira casa em Portugal — orçamento e poupanças

Há ainda muita confusão sobre quanto dinheiro é preciso poupar para comprar a primeira casa em Portugal. Algumas pessoas pensam que precisam de ter 30 ou 40 mil euros à cabeça mesmo para começar a procurar. Outras subestimam e ficam paradas no dia da escritura por falta de uns milhares para impostos.

A boa notícia para os jovens até aos 35 anos em 2026 é que o cenário fiscal está claramente do lado de quem compra primeira habitação. Vamos ver, passo a passo, exatamente o que vai precisar.

Os apoios que mudam tudo: IMT Jovem e Garantia Pública

Antes de fazer contas, precisa de saber se tem direito aos dois grandes apoios que o Estado mantém em 2026 para a primeira habitação. Se tem, o valor que precisa de ter poupado pode ser muito menor do que imagina.

1. Isenção total de IMT e Imposto de Selo (até aos 35 anos)

Os jovens até aos 35 anos que comprem a primeira habitação própria permanente ficam totalmente isentos de IMT e de Imposto de Selo na transmissão, até ao valor de 330.539 euros em 2026. Para casas entre 330.539 € e 660.982 € há isenção parcial. Acima desse valor, deixa de haver isenção.

Os requisitos são três e têm de ser cumpridos em simultâneo:

Ter 35 anos ou menos à data da escritura (conta a idade nesse dia).

Ser a primeira habitação própria permanente — não para investimento, segunda habitação ou arrendamento.

Não ter sido proprietário ou coproprietário de imóvel habitacional nos últimos 3 anos.

Se comprar com cônjuge ou unido de facto, ambos têm de cumprir os requisitos para a isenção ser total. Se apenas um cumprir, a isenção aplica-se proporcionalmente à sua quota-parte.

2. Garantia Pública do Estado (até aos 35 anos)

A garantia pública é talvez o apoio mais transformador para quem não tem dinheiro de entrada. Permite que o Estado funcione como fiador, garantindo até 15% do valor da transação. Na prática, isto significa que pode obter financiamento até 100% do valor de avaliação da casa, em vez dos 90% habituais.

Para aceder à garantia pública, precisa de:

Ter entre 18 e 35 anos e domicílio fiscal em Portugal.

Apresentar rendimentos que não ultrapassem o 8.º escalão do IRS.

Não ser proprietário de imóvel habitacional.

Não ter já beneficiado desta garantia pública anteriormente.

Este apoio aplica-se a contratos assinados até final de 2026, e desde a sua criação já beneficiou mais de 20.000 jovens com uma taxa de incumprimento praticamente nula. É uma das medidas mais bem desenhadas neste momento para quem quer comprar primeira casa.

A diferença que estes dois apoios fazem

Numa casa de 250.000 € em Caldas da Rainha, um jovem elegível pode poupar cerca de 8.500 € em impostos (IMT + Selo) e financiar até 100% do valor, em vez dos 90% normais — o que reduz drasticamente o valor de entrada necessário.

Quanto custa realmente comprar uma casa: todos os custos

Mesmo com os apoios, comprar uma casa tem custos que vão além do valor do imóvel. Estes são todos os encargos com que vai contar:

Entrada (capital próprio)

O Banco de Portugal limita o financiamento ao Loan-to-Value (LTV) de 90% para a generalidade dos compradores. Significa que, em regra, precisa de ter 10% do valor da casa em dinheiro próprio para a entrada. Para jovens elegíveis com garantia pública, este valor pode descer até zero.

IMT (Imposto Municipal sobre Transmissões)

Para quem não tem isenção, o IMT é progressivo, variando entre 0% e 8% do valor da casa, dependendo do escalão. Numa casa de 250.000 €, sem isenção, paga aproximadamente 6.500 € a 7.000 € de IMT.

Imposto de Selo

Existem dois Impostos de Selo na compra: um sobre a transmissão (0,8% do valor do imóvel) e outro sobre o crédito (0,6% do montante financiado). Numa casa de 250.000 € com 90% de financiamento, o total ronda os 3.350 €.

Escritura e registos

A escritura no notário, registo predial e abertura do crédito hipotecário custam entre 800 € e 1.500 € na maioria dos casos. Os jovens elegíveis têm também isenção de emolumentos na primeira aquisição.

Avaliação do imóvel

O banco exige uma avaliação profissional do imóvel antes de aprovar o crédito. Custa tipicamente entre 250 € e 400 €.

Comissões bancárias e seguros

Comissão de dossier, comissão de estudo, seguro de vida obrigatório (ligado ao crédito) e seguro multirriscos. Os custos iniciais somam 400 € a 800 €. Os jovens elegíveis têm também isenção de comissões iniciais bancárias em muitos casos.

Exemplo prático 1: jovem solteiro a comprar T2 em Caldas da Rainha

Vamos ver um caso real. Imagine um jovem de 30 anos, primeira casa, a comprar um T2 em Caldas da Rainha por 180.000 €:

Entrada (LTV 100% com garantia pública): 0 €

IMT: isento

Imposto de Selo da transmissão: isento

Imposto de Selo do crédito (0,6% de 180.000 €): 1.080 €

Escritura, registos e emolumentos: isentos para jovens elegíveis (poupa ~1.000 €)

Avaliação do imóvel: ~300 €

Comissões bancárias iniciais: muitas vezes isentas para jovens (~500 € poupados)

Seguros iniciais (primeiros prémios): ~300 €

Total a ter poupado para a escritura: cerca de 1.700 a 2.000 euros. Sim, é apenas isto, se tiver acesso a todos os apoios e ao financiamento a 100%.

Exemplo prático 2: casal jovem a comprar moradia na Costa de Prata

Casal com ambos os elementos com menos de 35 anos, a comprar moradia T3 em São Martinho do Porto por 320.000 €, com financiamento a 90% (sem usar garantia pública):

Entrada (10%): 32.000 €

IMT: isento (abaixo dos 330.539 €)

Imposto de Selo da transmissão: isento

Imposto de Selo do crédito (0,6% de 288.000 €): 1.728 €

Escritura e registos: ~800 € (parte isenta para jovens)

Avaliação: ~350 €

Comissões bancárias e seguros iniciais: ~600 €

Total necessário no banco antes da escritura: aproximadamente 35.500 euros. Sem os apoios, o mesmo casal pagaria cerca de 18.500 € a mais só em impostos. É uma diferença significativa.

Como obter as melhores condições no crédito habitação

Conseguir o crédito é apenas metade do trabalho. Conseguir bom crédito é o que faz a diferença ao longo de 30 ou 40 anos. Em 2026, os spreads dos bancos situam-se entre 0,5% e 1,5%. Para perfis bons, considera-se competitivo um spread entre 0,6% e 1%.

Os meus conselhos práticos para conseguir melhores condições:

Peça simulação a pelo menos 3 bancos diferentes — nunca aceite a primeira proposta.

Use as propostas de uns bancos como argumento de negociação com outros.

Mantenha taxa de esforço abaixo dos 35% do rendimento líquido — bancos oferecem melhores condições a quem tem margem.

Considere taxa mista (fixa nos primeiros 2-5 anos, depois variável) — oferece estabilidade inicial e flexibilidade depois.

Avalie cuidadosamente as vendas associadas (cartões, seguros) — podem baixar o spread mas têm custo mensal.

Compare a TAEG, não apenas a TAN ou o spread — é a única forma de comparar propostas honestamente.

Atenção ao prazo do crédito

Prazos mais longos significam prestações menores mas juros totais muito mais altos ao longo da vida do empréstimo. Sempre que possível, prefira prazos de 25-30 anos em vez de 35-40. A diferença na prestação é pequena, mas a poupança total é enorme.

Os erros mais caros que vejo jovens compradores cometer

Para fechar, deixo-lhe os erros que vejo mais frequentemente, e que custam dezenas de milhares de euros ao longo do tempo:

Começar a visitar casas antes de ter pré-aprovação bancária — perde tempo, oportunidades e poder negocial.

Esticar o orçamento até ao limite do que o banco aprova — fica sem margem para imprevistos e obras.

Esquecer-se da margem para obras e mobília — entrar numa casa nova sem dinheiro para mobilar é uma fonte de stress garantido.

Aceitar o seguro de vida do banco sem comparar — pode estar a pagar o dobro do que pagaria no mercado livre.

Não negociar nada — o spread, a comissão de dossier, o seguro, tudo é negociável.

Ignorar a localização real — a 5 minutos de carro pode mudar completamente o preço por metro quadrado.

Conclusão: comprar primeira casa em 2026 está mais acessível do que pensa

Para quem tem até 35 anos e cumpre os requisitos, 2026 é um dos melhores momentos da última década para comprar a primeira casa em Portugal. A combinação de isenção de IMT e Imposto de Selo, garantia pública para financiamento a 100%, e isenção de comissões iniciais, reduz drasticamente o capital próprio necessário para começar.

Mas para aproveitar bem estes apoios, precisa de chegar preparado: com o banco contactado, a pré-aprovação tratada, e a estratégia de zona e tipologia bem definida. Quem chega à reunião com o consultor imobiliário sem este trabalho feito perde oportunidades para quem chegou primeiro.

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